Dilma, Temer, Michelle Bolsonaro e o Estado Laico

Michelle Bolsonaro ao lado do presidente eleito Jair Bolsonaro (Foto: Divulgação)

Quando saiu na mídia que a futura primeira-dama Michelle Bolsonaro optou por tirar algumas imagens sacras do Palácio da Alvorada e eu vi algumas manifestações contrárias, não dei muita importância ao tema, que achei de pequena relevância. Tudo mudou, no entanto, quando me deparei com uma postagem de uma de minhas ex-professoras em uma rede social.

Ela começou seu "mini textão" com a informação de que quem criou os feriados religiosos no Brasil foi "o ateu Getúlio Vargas" e destacou que ele "sabia respeitar a fé alheia". Adiante, a senhora destacou que a futura primeira-dama deve aprender a "olhar e respeitar" e finalizou seu texto comparando a época que vivemos com 1964, época em que se iniciou o Regime Militar por aqui.

O que me espanta nisso tudo é a mudança no discurso conforme a conveniência. O grupo a que essa minha ex-professora pertence é aquele que confunde de certa forma Estado Laico com Estado Ateu. Que se sente prejudicado com um crucifixo exposto em uma repartição pública ou até com o nome de Deus exposto nas cédulas de dinheiro que circulam pelo país.

E foi esse mesmo grupo, lembro-me bem, que criticou a decisão do atual presidente Michel Temer de, no início de seu mandato como substituto da ex-presidente Dilma Rousseff, reinaugurar a capela religiosa do Palácio da Alvorada. Projetada especialmente com esse fim religioso por Oscar Niemeyer, o local havia sido transformado em um abrigo para os assessores da ex-presidente.

Fica explícito que a atitude de Dilma, na época defendida pelos guardiões do Estado Laico, foi de teor semelhante à da decisão de Michelle Bolsonaro sobre as obras sacras. A primeira provavelmente por falta de influência e importância religiosa em sua vida. A segunda, por não fazer parte do grupo religioso em que as obras estão inseridas. Somente uma, no entanto, foi criticada.

O fato é que a residência oficial do Presidente da República deve ser adequada aos gostos e interesses do Presidente da República, que certamente também ouve a opinião de sua companheira. Michelle, creio eu, não dará fim às obras presentes no local, que serão transferidas para o Palácio do Jaburu. Foi outro grupo que ficou conhecido por roubar objetos que, por direito, pertenciam ao Estado Brasileiro.

Assim como Temer, há dois anos, reativou a capela desativada por Dilma, outro presidente que venha a ocupar a residência oficial pode, tranquilamente, dispor as obras a seu gosto no local.